
Oswald Barroso**
Salvador, 03 de Março de 1971.
Deixei minha casa e minha família sem despedidas. Ninguém pode saber para aonde estou indo, seria arriscado demais, para mim, para minha família, meus amigos, para os que ficam. Ainda não sei bem o meu destino, fui convocada e não houve tempo para pensar sobre ir ou ficar, não há tempo para pensar. De qualquer modo, ainda que não sinta medo de partir sozinha, não estarei sozinha. Medo. Há algum tempo não sei mais o significado, o sentido, que sentimento representa a palavra. Para mim, tornou-se apenas uma junção de letras sem sentido. Os poucos objetos que trouxe comigo - dois sapatos, uma calça jeans, dois vestidos, um caderno, livrinho de Marx, fotografias da minha família e de alguns amigos – deixei-os para trás, fui obrigada a enterrá-los num depósito embaixo da terra. Levo saudades dos meus irmãos e irmãs, dos meus pais. Mas “é melhor uma saudade que uma cela de tortura [...] é melhor não ir vê-los e manter a saudade que perder a liberdade e, além disto, ter saudades e dores físicas. Por isso fui embora sem vê-los.”* Deixo a universidade, o curso de Medicina (Geografia, Economia, 3º-ano-do-2º-grau) não concluído. Que importa? “Para onde vou não tem volta [...] volto com a vitória ou não voltarei”*. Nunca tinha tocado num rifle. É pesado, preciso cortar lenha para exercitar meus braços. Sou de uma família tradicional da classe média de Salvador, não cozinhava, não lavava roupas, não pegava no pesado em casa. Tinha toalhas bordadas, um quarto só para mim. Tenho vinte e quatro anos. Precisei aprender a atirar, matar jabutis no mato, beber água do rio e misturada com lama. Rompi com tudo que havia de confortável. “Os sacrifícios serão maiores, mas a causa é justa e a vitória é certa.”*Um dia, ficamos sabendo que o exército havia chegado, estavam cercando a mata. Corri para dentro da mata, tentei escapar, fui caçada como um bicho, até ser encontrada e presa. Sabia que me restava pouco tempo de vida, tinha que fazer dos meus últimos minutos uma revolução. Fui levada por três homens para um ponto de mata espessa. Perguntei: “- Vou morrer agora? Eu quero morrer de frente”Olhei meu executor nos olhos, senti orgulho. Os tiros me empurraram para o chão. Meu corpo jamais foi encontrado. “Tristeza é o que eu não quero agora. Prefiro a alegria de [...] saber que estamos não apenas pensando em nós, mas também no povo, e também a alegria de partir em busca do que eu desejava e tenho certeza que é justo.Espero encontrá-lo um dia com o sorriso largo, participando da luta do povo. Se não nos encontrarmos, espero que encontremos o nosso povo sorrindo junto com a vitória consagrada.”*
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Acorda assustada com o barulho do despertador, abre e fecha os olhos freneticamente a fim de atestar a realidade. Está viva. Foi um pesadelo. Enche o peito de ar, solta o ar aos poucos pela boca, suspira aliviada, sente como se tivesse ressuscitado. Pega o celular que está ao lado da cama, são 5h 47min do dia 03 de agosto de 2009. “São os pesadelos de agosto” – Pensa. E pensa que, naquela noite, também morreu um pouco. Pensa que morre um pouco todos os dias, em nome de nada. Pensa que, todos os dias, finge que faz alguma coisa importante para o país, para o mundo, pelo aquecimento global, para a falta de água, pela bolsinha ecológica, pelas criancinhas desabrigadas, pelos excluídos da sociedade, e-mails encaminhados em protesto aos políticos corruptos, para manter sua cabecinha pseudo-intelectual-burguesa aliviada. Pensa que o sonho acabou.
“Se é para morrer por qualquer coisa, morra por algo que valha a pena. Morra por algo que transforme, mude a história do país.” Demerval Pereira
*Trechos de cartas e depoimentos de guerrilheiras(os).
** Poesia de Oswald Barroso à Jana Barroso e Helenira Resente. Poemas do Cárcere e da Liberdade. 1974.
O texto é uma tentativa de fazer uma pequena homenagem a todas mulheres guerrilheiras do Brasil, mortas e desaparecidas durante o regime militar.