
"E lá pelo sétimo, oitavo dia de bronzeado, passar as mãos nessas superfícies de ouro moreno provoca certo prazer solitário, até perverso, não fosse tão manso, de achar a própria carne esplêndida.”
Caio f. Abreu – Mel & Girasóis
Caio f. Abreu – Mel & Girasóis
Encheu a taça com vinho-tinto-seco-francês. Acendeu um cigarro. “C’est la vie qu’on mène, anxiolytiques et café creme”. Gostava daquele silêncio. E daquela solidão. Conseguia sentir claramente a angústia movendo-se por dentro – não no peito ou qualquer lugar específico do corpo – era tudo por dentro, sem buracos para escapar, sem dor: angústia branda, suave. E era bom. Estava acostumada a postergar o prazer. Ficaria ali, alimentando a própria angústia durante o tempo que fosse possível.A chanson française potencializava a angústia, a fumaça, o vinho amargo. Sentia-se confortável por estar só. Silêncio. Solidão silenciosa e confortável.
Eram dias de chuva aqueles. Sentimento ambíguo de prazer e aprisionamento. Gostava do clima, da cor cinza dos dias, das roupas quentes, o café e o cigarro proporcionavam mais prazer nesses dias frios. Ao mesmo tempo sentia-se sem liberdade, vontade de sair pelas ruas, medo de não conseguir voltar. De todo modo, as contingências externas forçavam à introspecção, o exercício de estar dentro.
E esperava. Um telefonema, um desabamento, uma carta, uma tempestade, um convite para fugir do país, um sinal de que o universo conspirava ou de que algum ser superior trabalhava para que tudo-desse-certo-no-final. Sentia-se idiota. Cadê a liberdade feminina do século XXI? Ela que se orgulhava de ser tão moderninha, tão diferente. Pura mentira.
O vinho acabou, o cigarro também. A vida lhe doía e estava exausta. Estava a ponto de desistir de manter relacionamentos-saudáveis-com-o-mundo-exterior. Saiu para comprar mais cigarros, mais uma garrafa de vinho. Um sinal, talvez. O destino a obrigou a enfrentar o mundo para comprar mais cigarros, e vinho, e continuar com o seu ritual de conforto solitário.
Costumava caminhar olhando para baixo, sem olhar as pessoas, meio anônima, meio invisível, meio discreta, misturando-se ao ritmo da cidade, embora não estivesse claramente fazendo parte daquilo tudo. Caminhava dentro dos seus sonhos, internamente, jovem burguesa que sonha em morar na Europa e freqüentar os círculos intelectuais. Comprou cigarros, fumava atentamente, aquele peso sobre os olhos.
E quase no fim, quase no fim de tudo percebia que estava só. Solidão. Depois, sairia aérea entre os escombros, pisando leve no chão, até não aguentar, até ficar tudo doído demais, até perder o controle sobre o próprio corpo e deitar. Dormir.

5 comentários:
Entre os escombros
surgem imagens vivas
e fortes da sua palavra.
gostei da mistura vinho poemas e verdades não reveladas da narrativa
bom, bom
Olá! É minha primeira visita ao seu elog , gostei muito do conteúdo: belas poesias em prosas.
Quanto a solidão ela é realmente um ótimo tema para brincarmos com palavras cinzas - sempre fica tão bonito!
Parabéns pelo blog.
Um beijo
Bem legal!
O conteúdo vai ficando mais claro pela forma, cinza e entardecida.
Gostei =)
ps. Marc Chagall? Frappante...
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